ÚLTIMO ATO
- Danilo dos Santos Pereira -
O velho levanta-se, bem cedo
Olha o tempo:
Será que vai chover ?
Será que vai esfriar ?
Senta-se no alpendre
E mede cada esquina.
Anda um pouco.
Sai no portão e saúda o mundo com seus olhos
cansados.
Cada velho é um velho.
Alguns tem biblioteca e mergulham nos livros, um
mergulho fundo
[de
quem não quer voltar à tona.
Outros são pragmáticos e vão
cuidar do jardim.
Blusa de lã com botões,
Cachecol enrolado no pescoço,
Boné com tapa-orelhas,
Óculos na ponta do nariz.
Rios, lagos e mares,
Reféns espetaculares
De pensamentos moldados
Em desejos incontidos.
Palidez de mármore.
Sorriso conforme a lua.
Lembrança de seus pares
Na calçada dura, crua,
Com passos vãos, apressados.
Ficando soltos nos ares
De abóbada seminua,
Seus gestos são delicados
Em todos os lugares
Desde que na sua rua.
Esfregando
mãos trêmulas sem força,
O velho fica espiando a vida como se a estivesse
apenas visitando.
Ela já não lhe oferece café com biscoitos,
Chá com torradas
E outros agradinhos.
Ficam olhando um para o outro
Com aquela falta de assunto própria de visita
encerrada.
Fica faltando o adeus, o até breve, o até o dia de
Juízo, conforme
a
crença de cada um.
O velho, então de malas prontas,
Fica à espera do último bafejo em sua tênue linha de
vida.
Nada teme. Simplesmente vive enquanto espera.
(Publicado no Jornal Hipercentro, de Belo Horizonte)