sábado, 2 de agosto de 2014

Tributo ao corpo de Elisa

Alma lisa, corpo estúdio.


Sua alma se foi, não se vê, não se sente. Só seu corpo insiste em se fazer presente.
Seu corpo, que sem querer lhe deram sem você pedir, pois você não nasceu do amor, nem teve infância. Você nasceu para a dor e foi criada para a ganância. Não lhe ensinaram a amar seu corpo, mas fazê-lo amado. E assim você fez de si um corpo ferramenta, um corpo arma.
Seu corpo você deu a quem pediu, emprestou, alugou, vendeu. Em fotos, em filmes, jornais, revistas, cartazes e outdoors. Seu corpo serviu para alimentar desejos e até dar vida.
Da vida dada, outro corpo a ser usado. O usaram e vão continuar usando. Eis que a ganância orientou a guerra, a ameaça, a extorsão e a loucura.
Um dia tiraram seu corpo de cena. Não mais o vemos nem sabemos se vive como nós. Mas não importa. A lembrança dele, a busca por ele sustentam as ameaças e os processos, os flashes, as promoções pessoais e a venda de jornais. Seu corpo enriqueceu alguns, empobreceu outros. Deu fama e poder, cargos e lucros. Encarcerou, matou, destruiu, espalhou desgraça e dor.
Mas vem a noite e seu corpo habita o imaginário e a lembrança de muitos. Incomoda, assusta, aterroriza talvez. Seu corpo permanece presente. A cada ossada encontrada o suspense se estabelece: pode ser seu o corpo que aparece. Fantasma de uns, tesouro de outros.
Mentem, desdizem, inventam histórias, dizem se lembrar de onde está, mas logo se vê que era só busca de novas glórias. Onde andará seu corpo agora? Nenhum cão o devorou. Não virou fumaça. Você passou, mas seu corpo não passa.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

ÚLTIMO ATO

              - Danilo dos Santos Pereira -     

O velho levanta-se, bem cedo
Olha o tempo:
Será que vai chover ?
Será que vai esfriar ?
Senta-se no alpendre
E mede cada esquina.

Anda um pouco.
Sai no portão e saúda o mundo com seus olhos cansados.
Cada velho é um velho.
Alguns tem biblioteca e mergulham nos livros, um mergulho fundo
                                                   [de quem não quer voltar à tona.
Outros são pragmáticos e vão cuidar do jardim.

Blusa de lã com botões,
Cachecol enrolado no pescoço,
Boné com tapa-orelhas,
Óculos na ponta do nariz.

Rios, lagos e mares,
Reféns espetaculares
De pensamentos moldados
Em desejos incontidos.
Palidez de mármore.
Sorriso conforme a lua.
Lembrança de seus pares
Na calçada dura, crua,
Com passos vãos, apressados.
Ficando soltos nos ares
De abóbada seminua,
Seus gestos são delicados
Em todos os lugares
Desde que na sua rua.

Esfregando  mãos trêmulas sem força,
O velho fica espiando a vida como se a estivesse apenas visitando.
Ela já não lhe oferece café com biscoitos,
Chá com torradas
E outros agradinhos.
Ficam olhando um para o outro
Com aquela falta de assunto própria de visita encerrada.
Fica faltando o adeus, o até breve, o até o dia de Juízo, conforme 
                                                            a crença de cada um.

O velho, então de malas prontas,
Fica à espera do último bafejo em sua tênue linha de vida.

Nada teme. Simplesmente vive enquanto espera.

(Publicado no Jornal Hipercentro, de Belo Horizonte)

quarta-feira, 30 de abril de 2014

QUATRO POEMAS DE VÔ
                                                   Danilo dos Santos Pereira (Nhô Danilo Pereira)

UM OLHAR APENAS 
                                               Para Mariana, Ana Rosa e Clara

O olhar de meu avô
Quiçá tenha sido
O olhar que agora tenho
Quando miro
Olhos miúdos que me fitam.

A ternura enxágua-me cada íris
E é reconfortante pensar
Que talvez assim fosse com meu avô
Quando o nosso olhar
Se encontrava.
                               

CANTIGAS DE MARIANINHA

I

Mariana! Mariana!
Eu sou tua sentinela
A voz que sempre te chama
Neste peito que revela
Um coração que te ama.


II

É tão grande
O amor que eu tenho pra lhe dar
E também o amor que tenho a receber...
Vou cantando esta cantiga de ninar
Só pra ver você, feliz, adormecer.

Mariana! Mariana!

Nosso amor é uma chama
E a cantiga de ninar
Que agora eu canto,
Transformada está
Em meu próprio acalanto.



ANA ROSA

  Ana Rosa
Rosa dos Ventos venturosa
Captora de direções dos rasos rumos
E dos pélagos profundos.

Ana se precipita
Em um mundo pequenino
Que é pertença
De gente pequena como ela.

Rosa é puro enleio
Nesse moreno desabrochar
De quem será mulher brasileira
Resplandecente como a luz das estrelas.

Ana Rosa
É flor revestida
Do amor dadivoso
Contrito e operoso
De circunstantes sedentos de seu redor.



CLARA

CLARA/Clarinha
Galáxia inominada
Clareira enluarada

CLARA/Clarinha
Vela de aceso pavio
Aquecendo-me no frio

Meu coração deu um grito
De júbilo em sua chegada,
Ofuscando no infinito
Cada estrela iluminada.

CLARA/Clarinha
Lâmpada de clarear
Farol para me guiar

CLARA/Clarinha
Uma luz nos olhos meus
Que me aproxima de Deus.



GABRIEL

Não apenas nascido e sim enviado
Por Deus de seu castelo estelar,
Que decidiu a todos contemplar
Com este ser de amor vivificado.

Nascendo impregnado desse amor
Tão profundo que logo se propaga,
Já mostra seu destino nesta saga
De terrena missão, voz e clamor.

Aí está o esperado, enfim chegou:
Gabriel é o seu nome desde então
Com o qual a sua mãe lhe consagrou.

Em pastoreio de nuvem e canção
O xará do Gabriel anunciou:
Em todo o Céu , trombetas soando estão.
A BICICLETA
                                Danilo dos Santos Pereira
                                                                         “No dia em que amei Elizabeth,
                                                                          Eu tinha 14 anos
                                                                          E Caí da bicicleta”
                                                                            (Osias Ribeiro Neves)

A bicicleta
Impunha-me
O pedalar constante
Nas artimanhas
Do ir e vir.
Minhas pernas
Eram poderosas
Com seus músculos de menino,
Não como essas de agora
Trôpegas
Artríticas
Sem força de passada.

Assim
Eu de outrora
Tangia o movimento.

Assim
Eu de agora
Ando bem devagar...


Já não pedalo mais!

quarta-feira, 16 de abril de 2014

CHAME O MINISTÉRIO PÚBLICO - Cordel de Nhô Danilo Pereira

CHAME O MINISTÉRIO PÚBLICO

- Cordel de Nhô Danilo Pereira -


(Jornal “O Estado de Minas”, de Belo Horizonte/MG, em uma de suas edições, estampou em primeira página a seguinte manchete: “Ministério Público vai acabar com a pichação em Belo Horizonte”)



Chame o Ministério Público
É conselho do jornal
Jornal “Estado de Minas”
Que a gente sabe, afinal
Que vive espalhando a idéia
De que isso é panacéia
Para todo e qualquer  mal.

Chame o Ministério Público
Se o seu muro for pichado
Nada vai acontecer
Você vai ficar irado
E o pichador vai gostar
De você vai galhofar
Mas não passa de um coitado.



Chame o Ministério Público
Para o jornal ele iria
Só falar da pichação
Trazendo muita alegria
Pra quem foi prejudicado
E assim ficar enganado
Achando que valeria.

Chame o Ministério público
Tá lá no “Estado de Minas”
Em manchete do jornal
E nas letras pequeninas
Com algum estardalhaço
Fazendo-nos de palhaços
Ferindo nossas retinas.

Chame o Ministério Público
Mas não irá resolver
Pois somente pro jornal
É que vai acontecer
Pro jornal ele pode tudo
Na forma e no conteúdo
Mas ninguém paga pra ver.


Chame o Ministério Público
Disse o sempre parcial
Inventor de noticiário
E nunca se sabe qual
É a verdade por trás disso
Qual seria o compromisso
O que tem de intencional.

Chame o Ministério Público
Pois chame mesmo pra ver
Que tudo será como dantes
Para nada acontecer
Tudo fica como está
E pra sempre ficará
Serve apenas pra inglês ver.

Chame o Ministério Público
Chame logo e que se dane
Se seu muro foi pichado
Que o cheiro de tinta emane
Deste jornal sectário
No seu nariz de otário
Querem que você se engane.


Chame o Ministério Público
Chame mesmo quero ver
Se você crê em duende
Em tartaruga a correr
Talvez em papai Noel
Abelha que não faz mel
Em cego que pode ver.

Chame o Ministério Público
Que constitucionalmente
Salário de marajá
Recebe solenemente
E se tornou, podes crer
Da Nação quarto poder
Para si principalmente.

Chame o Ministério Público
Que medidas vai tomar?
Vai prender o pichador
Para na prisão ficar
E a dantesca pichação
Na parece ou no portão
Pra sempre se acabar?

Chame o Ministério Público
Pra nada se resolver
Num grande jogo de cena
Basta esperar para ver
Tudo ficar como dantes
Num grande quartel de Abrantes
Para nada acontecer.

Chame o Ministério Público
Meu senhor, minha senhora
Ele gosta de holofotes
Nada vai fazer agora
Pois afinal a demora
É sua especialidade
Infrator fica à vontade
E a pichação só vigora.

Chame o Ministério Público
Mas chame o jornal também
Jornal “Estado de Minas”
O convênio que ele tem
Ninguém pode imaginar
Pois não dá pra adivinhar
Porque tanto lhe convém.


Chame o Ministério Público
Que é da nossa lei fiscal
E é claro, tem importância
Inclusive pro jornal
Que demonstra submissão
E o senhor do sim, do não,
Sempre põe num pedestal.

Chame o Ministério Público
Que a tudo diz resolver
Pra proteger a nação.
Mas como é que pode ser
Corrupção adoidado
Pichador pra todo lado
Miséria a nos corroer?

Chame o Ministério Público
A cada muro pichado
Quem vende tinta agradece
Faturamento dobrado
Tantos pincéis e sprays
Reverência aos novos reis
De um país tão enganado.


Chame o Ministério Público
Não vai mesmo adiantar
Mas o jornal publicou
E foi pra desinformar
Então vemos todo dia
Pichador com alegria
O nosso muro pichar.

Chame o Ministério Público
E chame sem vacilar
O engenheiro de obras prontas
Que vai somente falar
Que faz isso e faz aquilo
Que pode ficar tranqüilo
Medida não vai faltar.

Chame o Ministério Público
Pra que possa investigar
O que a Receita ou Polícia
Acabou de desvendar
Com mídia é sensacional
Chame logo o tal jornal
Parceiro pra publicar.

Chame o Ministério Público
Não é preciso esperar
Porque afinal de contas
Não importa o que vai dar
E tamanha enganação
De norte a sul da nação
Um dia vai terminar.

Chame o Ministério Público
Ele também vai chamar
O tal jornal lambe botas
Pra poder noticiar
Mostrando a torto e a direito
O que jamais será feito
Nem sairá do lugar.




Glosa de Nhô Danilo Pereira 
em estrofes de poema do livro “CIDADE MULHER”, 
de Weverton Duarte Araújo.



CONTEMPLO A ESCURIDÃO
E EM MEIO À OBSCURIDADE
VEJO À LUZ DO LAMPIÃO
O TEMPLO, A CRUZ, A CIDADE.

(Do poema Outra Visão)

GLOSA

Qual derradeira viagem
Com o bilhete na mão,
Mesmo com tanta paisagem
CONTEMPLO A ESCURIDÃO.

A vida, assim me conduz
Na mentira e na verdade,
Em torno de muita luz
E EM MEIO À OBSCURIDADE.

O amor que, em meio às dores,
Se esconde na escuridão
Com olhos perscrutadores,
VEJO À LUZ DO LAMPIÃO.

Tudo fica benfazejo
Quando persiste a bondade.
Onde a vista alcança, eu vejo
O TEMPLO, A CRUZ, A CIDADE.
Glosa de Nhô Danilo Pereira 
em estrofes de poema do livro “CIDADE MULHER”, 
de Weverton Duarte Araújo.


O PESO DA PENA QUE PAGO
NÃO PODE UM LEIGO MEDIR.
MINHA CRUZ PORÉM NÃO LARGO
POR NÃO SABER AONDE IR.
 (Do poema Querido Castigo )


GLOSA

Das dores que tem no mundo,
Algumas delas eu trago
Sabendo, em choro profundo,
O PESO DA PENA QUE PAGO.

E assim vou levando a vida,
Dia a dia a refletir
Que a dor de cada ferida
NÃO PODE UM LEIGO MEDIR.

Cada qual tem seu quinhão,
Cada qual tem seu encargo.
Às vezes perco a razão,
MINHA CRUZ POREM NÃO LARGO.

Um Norte então eu procuro,
Para poder prosseguir.
Na mão de Deus eu seguro,
POR NÃO SABER AONDE IR.